Entrevista com Eliane Giardini, a Indira de Caminho das Índias

eliane giardini

Eliane Giardini brinca que sempre que recebe um convite de Glória Perez para atuar, aceita sem saber o que vai fazer. A intérprete da zelosa Indira de Caminho das Índias já soma seis trabalhos com a autora, quase todos com papéis de destaque.

Por isso mesmo, não se incomodou com as supostas semelhanças entre o trabalho atual e a inesquecível Nazira, solteirona marroquina que interpretou em O Clone. Aos 56 anos, ela também atribui à maturidade a segurança que vem sentindo.

“A experiência leva a gente à tranqüilidade. Você passa muitas vezes pelo mesmo ‘lugar’, já sabe maneiras de se virar bem”, filosofa.

Eliane se sente cada vez mais jovem para experimentar coisas novas. A atriz dirigiu recentemente seu primeiro curta-metragem, Filtro de Papel, ao lado da filha, Mariana Betti. E gostou tanto da experiência que começou a “pensar grande”, como gosta de se referir.

“Vi um edital para um longa-metragem de baixo orçamento e já me animei toda”, antecipa, completando que não pode dizer ainda que texto pretende rodar. “Dirigir mudou completamente meu olhar de atriz. Quero explorar cada vez mais esse lado porque sei que isso vai se refletir na minha atuação no ar, como acontece agora, em Caminho das Índias“, garante.

Essa é a sua segunda personagem estrangeira em uma novela. Foi mais difícil compor uma indiana do que uma marroquina?
Não sei se dá para dizer que foi mais fácil ou mais difícil. Mas a verdade é que a Globo está mostrando uma preocupação forte com a preparação de todo o elenco antes de começarem as gravações. Ficamos uns 45 dias em workshops, estudando só a cultura indiana. E com atividades todos os dias. No mês de agosto tive de me dividir um pouco, porque ainda estava terminando Capitu. Mas essas lições foram fundamentais. Vimos análises de comportamento, palestras, dança, culinária, tudo que faz parte do universo indiano. A preparação para Caminho das Índias foi muito maior do que para O Clone. Na verdade, o que a gente aprendeu sobre o Marrocos também ajudou nesse trabalho.

De que jeito?
É quase que uma extensão. A cultura do Marrocos tem muitas semelhanças com a indiana, embora seja completamente diferente. Em ambas, a família é a base de tudo. Os conflitos dos personagens estão muito ligados a valores familiares. E isso é muito sábio até. Eu gosto porque lembra a minha educação. Parece bastante com a minha família.

Que semelhanças com o seu passado ajudaram nesse trabalho?
Vim do interior, de uma família grande, italiana. Às vezes, eu fico pensando que a diferença é meio que de tempo. Meu avô veio da Itália e montou uma oficina mecânica aqui. Todos os filhos trabalhavam com ele. Se algum queria sair, sentia vontade de viver outras experiências, virava o desgosto da família. Tinha de trabalhar ali. Por um lado é massacrante, porque você perde sua individualidade. Mas, por outro, você encontra uma sustentação, sabe que não está sozinho no mundo. É uma segurança maior ter pessoas dando suporte a você. Aconteça o que for, elas vão estar ali. Quando gravo, tenho a sensação de que estou lá em Sorocaba, na Rua Comendador Oeterer, com a minha avó e minha bisavó. Isso me ajudou a entender vários valores abordados na novela.

Muita gente reclama que a Índia não tem mais a rigidez de costumes que a novela apresenta. Você é muito abordada nas ruas por causa disso?
Sinceramente, esses comentários não fazem a menor diferença para mim. Tem gente que vai gostar muito e gente que vai odiar o que está sendo mostrado. Posso dizer que ouço muitas coisas boas de vários indianos, descendentes de indianos e pessoas que já visitaram a Índia. Aliás, nunca pensei que tivesse tanta gente no Rio com referências indianas. Acredito que a Índia está passando por uma modificação absurda agora, até porque não existem mais barreiras, as informações circulam. Existe uma tendência ao individualismo lá também. Parece que é uma questão de tempo para que tudo acabe, os costumes estão se dissolvendo rápido.

O que essas pessoas dizem?
A maioria acha, pasme, que a abordagem é até discreta. Alguns falam que a novela está pálida. E isso enquanto há brasileiros que reclamam que é tudo alegre demais. Há um tempo atrás, eu dava muito valor ao que as pessoas achavam, ficava preocupada. Hoje aprendi a ser indiferente a essas coisas.

Você sentiu falta de gravar na Índia? Isso atrapalhou sua composição?
Não vou mentir que não estava louca para ir com a equipe. E achei que fosse. Mas não rolou. Analisando bem, não havia necessidade. A maioria das minhas cenas é em estúdio, são poucas as externas que faço em cidade cenográfica. Claro que ver, conviver, ainda que por pouco tempo, teria sido de grande valia. Mas não me sinto prejudicada com isso.

A Indira marca, de certa forma, seu retorno a um papel cômico na TV. Você gostou dessa volta?
O bom da Indira é que ela tem um pé no humor sim, mas é uma mulher com conflitos densos. Eu senti falta de sair um pouco da comédia antes. E fui atendida quando me escalaram para interpretar a Pérola de Eterna Magia. Foi um trabalho muito bom para mim. Eu viajava nessa magia dos anos 40, 50. Me sentia em um filme daquela época. Depois fiz Capitu, acho que minha carreira vai muito bem na TV. Não tenho motivos para reclamar.

Quando você foi escalada para Caminho das Índias, teve receio de comparações com a Nazira, de O Clone?
Inicialmente, sim. Na verdade, isso era uma coisa dentro de mim. Mas eu dirigi um curta com minha filha que me ajudou muito nisso. Aprendi ali que quando se escala alguém para um papel, é pela “atmosfera” do ator. Claro que vão ter semelhanças, sou eu fazendo. É a minha voz, é a minha cara. E se a Glória Perez me escolheu, é porque ela sabe o que eu tenho a oferecer para esse personagem. É comum em novela você escalar um ator para aquilo que ele já mostrou que sabe fazer. É diferente de uma minissérie ou um espetáculo, onde você tem tempo para se despir de todas as características de personagens passados e embarcar em um trabalho de concentração e criação. Foi assim em Capitu, por exemplo.

Quanto tempo você trabalhou em cima de Capitu?
Você entrou no ponto que faz toda a diferença. Antes de começar a gravar, foram três meses só estudando a obra e os personagens. Depois, um mês e meio gravando. Foram quatro meses e meio de trabalho. E isso para cinco episódios no ar. Assim dá para você apagar o que você já fez, escolher o que mais tem a ver com a situação, com o personagem… Novela é mais difícil. Não tinha muito sentido ficar pensando no registro de voz, de caminhar, de falar da Nazira e da Indira. Tem quase oito anos que fiz O Clone. Eu já me refiz inteira desde aquela época. Por isso eu desencanei mesmo do risco de comparações.

Depois de muito tempo, você faz uma novela onde sua sensualidade não é explorada. Como você encara isso?
Acho ótimo poder usufruir dessas variações aos 56 anos. O ideal é trabalhar de forma periférica. Em cada obra eu desenvolvo melhor um lado. É isso que ajuda a tornar cada personagem diferente. Tem um monte de características minhas no banco de reserva, diferentes das que elegi para a vida. Elas ficam esperando uma oportunidade de serem usadas nos meus papéis.

Quase “local”
Eliane Giardini se diverte ao comparar sua vida com os valores familiares explorados em Caminho das Índias. Assim como os personagens do núcleo estrangeiro da novela de Glória Perez, a atriz conseguiu juntar três de seus principais parentes em um trabalho.

No curta Filtro de Papel, ela dividiu a direção com a filha Mariana Betti, usou um texto da irmã, Elizete Giardini Rosa, e acrescentou na última cena uma música da outra filha, Juliana Betti. “Quando eu digo que me identifico demais com a proposta da novela, não é exagero. As pessoas que saíram do interior têm esse apego à família”, justifica.

Decidida a se aperfeiçoar como atriz através de experiência no cinema e dirigir também, de alguma forma, sua carreira, Eliane já tem outro projeto próprio. Ela vai transformar em filme o espetáculo O Mundo dos Esquecidos, que encenou em 2007. A atriz já tem larga experiência em “fabricar” trabalho.

Antes de fazer sucesso como a batalhadora Dona Patroa em Renascer, na Globo, em 1993, as oportunidades para Eliane na TV não eram tão boas. Isso quando elas apareciam. O que deixava a atriz mais próxima dos palcos, produzindo suas peças. “Até os 40 anos eu não conseguia fazer um bom trabalho em TV. Eu tinha a síndrome da mulher invisível, não conseguia ser notada”, confessa.

Adaptação fácil
Um dos maiores prazeres de Eliane ao gravar suas cenas em Caminho das Índias é usar o figurino de Indira. A atriz não só se acostumou às cores e acessórios de sua personagem como também passou a gostar das peças utilizadas. “Fico triste cada vez que acaba e eu tenho de tirar para ir embora”, exagera.

A vantagem de usar um figurino extravagante, na opinião de Eliane, é poder experimentar algo que ela jamais se permitiria fora da ficção. “Sou muito básica na vida. Por isso mesmo, o trabalho funciona como uma terapia para mim”, entrega.

Além disso, a atriz admite que o “exagero” das roupas indianas – sob o ponto de vista ocidental – é um fator que a auxilia a “entrar” na personagem. “É só eu botar o cabelo, a roupa e a maquiagem que a Indira vai chegando. No final, eu não vejo mais a Eliane no espelho”, conclui.

Trajetória televisiva
Ninho da Serpente (Band, 1982) – Lídia. 
Campeão (Band, 1982) – Cris. 
Vida Roubada (SBT, 1983) – Hilda. 
Meus Filhos, Minha Vida (SBT, 1984) – Carmem. 
Uma Esperança no Ar (Band, 1985) – Débora. 
Helena (Manchete,1987) – Joana. 
Desejo (Globo, 1990) – Lucinda. 
Felicidade (Globo, 1991) – Isaura. 
Renascer (Globo, 1993) – Iolanda (Dona Patroa). 
Incidente em Antares (Globo, 1994) – Eleutéria. 
Engraçadinha… Seus Amores e Seus Pecados (Globo, 1995) – Maria Aparecida. 
Irmãos Coragem (Globo, 1995) – Estela Barros. 
Explode Coração (Globo, 1995) – Lola. 
A Indomada (Globo, 1997) – Santinha. 
Hilda Furacão (Globo, 1998) – Bertha. 
Torre de Babel (Globo, 1998) – Wandona. 
Andando Nas Nuvens (Globo, 1999) – Janete. 
Os Maias (Globo, 2001) – Condessa de Gouvarinho. 
O Clone (Globo, 2001) – Nazira Rachid. 
A Casa das Sete Mulheres (Globo, 2003) – Caetana. 
Um Só Coração (Globo, 2004) – Tarsila do Amaral. 
América (Globo, 2005) – Neuta. 
JK (Globo, 2006) – Tarsila do Amaral. 
Cobras & Lagartos (Globo, 2006) – Eva. 
Eterna Magia (Globo, 2007) – Pérola. 
Capitu (Globo, 2008) – Dona Glória. 
Caminho das Índias (Globo, 2009) – Indira.

TV PRESS

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Uma resposta para “Entrevista com Eliane Giardini, a Indira de Caminho das Índias

  1. amúh a Eliane…

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